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Deus lhe pague

Deus lhe pague

O mais belo e poderoso agradecimento

Hei de louvar-te de todo o coração, Senhor, meu Deus, e glorificar o teu nome para sempre. Sl 86,12

Esta brochura do Movimento Marianíssimo de Sacerdotes e Leigos convida a redescobrir o venerável «Deus lhe pague» como o mais belo e poderoso agradecimento. Trata da resposta «Deus abençoe», do exercício da gratidão para com Deus e para com os homens, da torrente de graças da Santa Missa, da chave do Sacratíssimo Coração de Jesus e da graça do momento, e apresenta Santos agradecidos, como o irmão capuchinho Félix de Cantalice.

O «Deus lhe pague» na balança

O seguinte acontecimento verídico passou-se no ano de 1852 na pequena cidade de Albendorf, na região de Glatz, então ainda austríaca.

Uma pobre operária, cujo marido estava havia já bastante tempo doente de cama, quis pedir ao talhante um pedaço de carne para uma sopa substancial. Expôs o seu pedido ao mestre talhante. Este, porém, abanou a cabeça e disse: «Não gosto desse tipo de clientes. Quero ver dinheiro vivo.» «Também não o quero de graça», disse a velhinha. «Dou-lhe um Deus lhe pague, que pesa bem.» Em tom de troça, o talhante disse: «Quanto é que o seu Deus lhe pague há-de pesar? Já vamos ver.» Pega num pedaço de papel, escreve nele as palavras Deus lhe pague e coloca-o num dos pratos da balança. Mas eis que não acredita nos seus olhos. De um só tranco, este prato desce. Depressa corta um pedaço de carne da mesa ao lado e põe-no no outro prato. Mas este não se mexe. Ainda um segundo pedaço, um terceiro pedaço põe por cima, sim, toda a carne que tem em cima da mesa. Mas não consegue fazer subir o prato com o Deus lhe pague. Este permanece em baixo; o outro, com tanta carne, permanece em cima. O talhante não se refaz do espanto.

Abana a cabeça e diz: «Isto nem parece acreditável, mas estou a ver com os meus próprios olhos: o Deus lhe pague pesa mais do que toda a minha carne.»

Deu à surpreendida velhinha um bom pedaço e, daí em diante, passou a ter o Deus lhe pague em grande conta.

Na minha infância ouvi contar esta história vezes sem conta. É atestada por aqueles que a viveram no tempo dos bisavós.1

Porque, diante de ti, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança. Sb 11,20

1 P. Bonaventura Blattmann OFM, Vergelt's Gott, Imprimatur: Augsburg, 30.05.1938 vic. gen. Dr. Eberle.

A gratidão enriquece a nossa vida

A frequência com que a Sagrada Escritura nos convida à gratidão e à acção de graças não deixa dúvida alguma sobre a sua importância para a nossa vida espiritual. Muitos Salmos transbordam literalmente de expressões de agradecimento e São Paulo não se cansa de exortar a comunidade à acção de graças.

Deus envolve as almas agradecidas com um amor de predilecção especial e cumula-as de favores, pois a cada agradecimento sincero que oferecemos a Deus, nosso maior Benfeitor, Ele associa de imediato uma nova graça, de acordo com as nossas necessidades pessoais. Interessante, neste contexto, é também que os conceitos de agradecimento (Gratias) e de graça (Gratia) provêm da mesma raiz latina.

São Tomás de Aquino explica da seguinte maneira a ligação entre graça e agradecimento: a gratia é a benevolência de Deus que se comunica, pela qual Ele torna um homem agradável a Seus olhos, e a gratiarum actio é a resposta a este dom imerecido, suscitada no homem pela graça.

Só quando a graça se torna agradecimento é que alcançou o seu fim. A ingratidão, pelo contrário, revela-se desgraça. Quão dolorosamente nos atinge quando o nosso esforço por fazer bem ao próximo esbarra na ingratidão ou numa atitude superficial de quem acha tudo natural. Mas muito mais ainda é Deus ferido pela vil ingratidão das Suas criaturas. Já no Antigo Testamento se diz no Livro da Sabedoria: Para que se soubesse que é necessário antecipar-se ao sol para te dar graças, e ir ao teu encontro antes do despontar do dia. Pois a esperança do ingrato derreter-se-á como geada de inverno e escorrerá como água sem proveito. (Sb 16,28-29)

E quão triste soa a pergunta do nosso Salvador depois da cura dos dez leprosos: Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro? (Lc 17,15-18)

A palavra alemã Danken (agradecer) vem de «Denken» (pensar). Agradecido é quem pensa nos benefícios recebidos, em vez de os esquecer, e quem também mostra este não esquecimento em palavras e obras.

Como beneficiados, deparamos muitas vezes com os nossos limites. Que nunca poderemos retribuir a Deus, nem de longe, o bem que Ele nos faz em cada instante, disso estamos bem conscientes, mas não é também verdade que, em muitas situações da nossa vida, as manifestações de agradecimento aos nossos benfeitores ficam igualmente muito aquém do que recebemos? Precisamente em tais momentos é um alívio imenso pedir ao Pai do Céu, com a forma popular de agradecimento do Deus lhe pague, que retribua aos nossos benfeitores o que deles pudemos receber.2

Os meus pais Vos recomendo, guardai-os, bom Deus, Vos peço.
Retribuí, ó Deus, pois eu não posso, o bem que eles me fizeram!

2 Cf. P. Dr. Bernward Deneke FSSP, Informationsblatt der Priesterbruderschaft St. Petrus, Ago./Set. 2025.

O mais belo e poderoso agradecimento

O santo franciscano Padre Bonaventura Blattmann (1860-1942) escreve no seu opúsculo intitulado Vergelt's Gott sobre o valor incomensurável da gratidão praticada por amor de Deus. Comovente é, a este respeito, o diálogo filial e afectuoso entre este religioso agraciado com dons místicos e Nosso Senhor Jesus Cristo.3

3 O P. Bonaventura foi, de 1903 a 1912, Provincial dos Franciscanos da Baviera. Depois de uma grave doença, dedicou-se até à sua morte à Guarda de Honra do Imaculado Coração de Maria, por ele fundada, sobretudo também através da difusão de opúsculos. Em 1932 fundou a Arquiconfraria do Sacratíssimo Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria.

A Última Ceia

A Última Ceia

A lei da gratidão

Jesus: Já reflectiste, querida alma, sobre a gratidão?

Alma: Não, amantíssimo Jesus. Peço-Vos, instruí-me. Vede, tenho fome e sede das palavras do Vosso amor.

Jesus: Sabe, boa alma, que a lei da gratidão já está inscrita na própria natureza do homem. Por isso, até muitos incrédulos e pagãos praticam a gratidão. Sim, tu mesma já fizeste a experiência de que até alguns animais são gratos e afeiçoados aos seus benfeitores. Em contrapartida, há homens que se deixam guiar mais pelas suas paixões do que pela lei da natureza.

Mas, como Eu sou o Deus da bondade e da misericórdia e não quero que ninguém se perca, recordei aos homens, tanto no Antigo como no Novo Testamento, muitas vezes e em palavras claras, o dever da gratidão. O Meu amor pelas almas foi, porém, ainda mais longe. Ensinei-lhes a gratidão para com Deus e para com os homens também pelo Meu exemplo. Repetidamente se diz de Mim: «Jesus ergueu os olhos ao Céu e deu graças».

Mas sabe, querida alma, que também no Santíssimo Sacramento do amor dou graças ao Pai Celeste por todo o amor, graça e misericórdia que Ele concede às almas de modo totalmente imerecido. No Santíssimo Sacramento ofereço ao Pai Celeste também o agradecimento de reparação e desagravo por todas aquelas almas que não agradecem e que nem sequer querem compreender que estão obrigadas a dar graças a Deus de modo santíssimo.

Considera ainda, querida alma, que no Santíssimo Sacramento sou, em certo sentido, Eu mesmo grato às almas que, de boa vontade, vêm visitar-Me, testemunhar-Me o seu amor, consolar-Me e prestar-Me reparação e desagravo por aquelas almas que não se lembram de Mim.

A estas boas almas mostro-Me grato consolando-as, iluminando-as, aumentando nelas o amor e a graça, dando-lhes força para o combate contra as tentações, enchendo-as de santa alegria para o cumprimento da sua vocação e concedendo-lhes, na cruz e no sofrimento, grande paciência e fortaleza, para que possam suportá-los de modo meritório para a eternidade. Mas agora pergunto-te, querida alma: queres seguir-Me na gratidão?

Alma: De boa vontade e cheia de amor quero fazê-lo. Mas peço-Vos, amantíssimo Jesus, dizei-me como devo praticar a gratidão.

Nunca, Senhor, Vos poderei agradecer bastante.
Agradeça-Vos cada respiração.
Agradeça-Vos cada batimento do coração,
até ao último batimento, no último dia.
Então agradecer-Vos-á todo o pensamento
com um eterno agradecimento, agradecimento, agradecimento!
A Santíssima Trindade (El Greco)

A Santíssima Trindade (El Greco)

Exercício da gratidão para com Deus

Jesus: Pondera bem, querida alma, que toda a tua vida está repleta de benefícios de Deus. Cada respiração é já um dom de Deus. Ainda maiores e mais preciosas são as inúmeras graças sobrenaturais que te chegam todos os dias. Com razão, por isso, a santa Igreja exorta os fiéis, no Prefácio da Santa Missa, a dar graças a Deus sempre e em toda a parte.

Alma: Mas como, amantíssimo Jesus, devo dizer quando quero agradecer a Deus?

Jesus: No agradecimento a Deus há muitos graus. As expressões mais simples de agradecimento são: Agradeço-Vos, ó Deus. Ou Graças a Deus. Vê, estas palavras de agradecimento tornam a tua alma não só muito mais agradável a Deus, mas também a adornam com uma série de virtudes. Com a virtude da gratidão praticas também a virtude da fé, do amor, da humildade. Com cada acto de agradecimento tornas-te, pois, muito mais agradável a Mim. Se, porém, fores um pouco mais longe e disseres ao agradecer: A Deus sejam oferecidos louvor, glória e acção de graças, oferecerás a Deus, com os actos de virtude acima mencionados, também o louvor. Desse modo a tua alma fica de novo muito mais enriquecida.

Incomparavelmente mais valioso se torna o teu agradecimento quando, ao agradecer, deixas actuar a vontade. Fazes isto quando, nas ocasiões que se oferecem, dizes: A Deus sejam oferecidos, em nome de todas as almas e por todas elas, louvor, glória e acção de graças. Fazendo-o assim, não agradeces apenas tu sozinha, mas ofereces-Me o agradecimento de todas as almas e prestas-Me ao mesmo tempo reparação e desagravo por todas aquelas almas que não Me agradecem. Assim alcanças em alto grau o amor e a complacência de Deus e fazes descer sobre as almas a misericórdia de Deus.

Alma: Mas como, amantíssimo Jesus, hei-de fazer se quiser agradecer-Vos, ao Pai e ao Espírito Santo sempre e em toda a parte?

Jesus: Esta tua pergunta alegra o Meu Coração e com alegria te digo que a actividade da vontade é o meio para isso. Suscita para este fim, com frequência, o seguinte acto de vontade: À Santíssima Trindade sejam oferecidos infinitas vezes, sempre e em toda a parte, em nome e por todas as almas, louvor, honra, glória e acção de graças por tudo, de eternidade em eternidade. Com este acto de eternidade do agradecimento ofereces-Me o agradecimento em nome e por todas as almas não apenas uma vez, mas infinitas vezes, e este teu agradecimento perdurará e actuará por toda a eternidade, porque Deus em tudo olha à vontade.

Alma: Ó amor eterno, quão bom sois, que me instruístes tão amorosamente sobre a gratidão para com Deus.

Oh, dizei-me também, por favor, como devo agradecer aos homens.

Exercício da gratidão para com os homens

Jesus: Repara bem, alma que amas a Deus, que na gratidão para com os homens há igualmente muitos graus, semelhantes aos do agradecimento a Deus. Os homens mundanos e todos aqueles que se deixam dominar pelo espírito do mundo praticam a gratidão por motivos puramente naturais, por exemplo porque é costume, ou porque é próprio agradecer. Vê, tal agradecimento acarreta apenas uma recompensa puramente natural. Eu recompenso, sim, de diversas maneiras este agradecimento às almas, mas apenas neste mundo. Se, pelo contrário, disseres agradeço por amor de Deus, ou porque Deus quer que sejas grata também para com os homens, praticas a virtude da gratidão por um motivo sobrenatural. Vê, um tal acto de agradecimento recompenso-o com bens sobrenaturais e eternos. Cresces na graça santificante e adquires méritos para o Céu. Incomparavelmente mais valioso, mais agradável a Mim, mais eficaz e mais abençoado é, porém, o agradecimento do «Deus lhe pague».

Do «Deus lhe pague»

Jesus: Grava bem, querida alma, o que te digo agora. Se agradeces com um Deus lhe pague, pedes-Me que retribua à alma o bem que ela te fez. Este teu pedido atendo-o de muito boa vontade e recompenso abundantemente a alma que te fez bem, segundo a medida da sua receptividade. Mas ainda muito maior é o proveito que tu mesma tens quando agradeces com «Deus lhe pague». É que, com o «Deus lhe pague», prestas à alma que te fez bem quase sempre um benefício muito maior do que o que ela te prestou. Com esta obra de caridade para com o próximo alegras o Meu Coração e Eu hei-de recompensar-te por isso com abundância. Além da virtude da gratidão, praticas a virtude da fé, da confiança em Deus, do amor de Deus e do próximo, da verdadeira piedade, da prudência e da humildade. Daqui vês que a tua alma, depois de cada «Deus lhe pague» sincero, resplandece num ornato de virtudes muito mais glorioso. E depois de cada verdadeiro «Deus lhe pague» recebes também um múltiplo aumento da graça santificante, e tudo o que fazes a seguir tem um valor espiritual muito maior do que antes. Vês agora, querida alma, que grande proveito espiritual o «Deus lhe pague» traz à tua alma?

Nada torna o homem tão digno dos dons divinos como a gratidão constante para com Deus pelos dons recebidos. Santo Inácio de Láconi
Concedei, ó Deus, que a todos os que nos fizeram bem, no corpo e na alma, nunca falte o pão do Céu e da terra.

Alma: Ó meu bom Jesus, quão profundamente dói à minha alma ter sofrido tantos danos por me ter contentado tantas vezes com um agradecimento puramente mundano. De futuro, porém, em todos os casos direi sempre apenas «Deus lhe pague». Ó Jesus, abençoai, por favor, este meu propósito.

Do «Deus abençoe»

Jesus: Com grande amor atendo o teu pedido. Mas, querida alma, não te fiques a meio caminho, antes dá também sempre ao «Deus lhe pague» a resposta apropriada. Esta é «Deus abençoe». Se respondes à alma que te diz «Deus lhe pague» por algo com um «Deus abençoe», a bênção de Deus é concedida em plenitude a ambas as almas.

Oh, se os homens soubessem quanto o Meu Coração anseia por dispensar às almas graças, bênçãos e benefícios, corresponderiam a este Meu amor. Mas poucos o desejam. Com «Deus lhe pague» e «Deus abençoe», duas almas dão-Me a alegria de Me pedirem, no amor, uma pela outra. Com estes pedidos recíprocos, ambas as almas praticam uma obra espiritual de misericórdia. Na verdade, atendo com alegria os pedidos de ambas as almas e não ponho limite nem à retribuição nem à bênção, de modo que superam em tudo todas as recompensas terrenas. Mas ainda muito mais precioso é o ganho de graça e de virtude que ambas as almas alcançam para si mesmas pelos seus pedidos.

Elevação do valor do «Deus lhe pague»

Jesus: Visto que vejo, querida alma, o teu coração cheio de desejo de Me dar muita alegria com o «Deus lhe pague» e com o «Deus abençoe», quero chamar-te a atenção para o modo como podes tornar ainda muito maiores os efeitos de ambos os pedidos.

Alma: Ó Jesus, haverá então algo ainda maior do que aquilo que me dissestes sobre o «Deus lhe pague»?

Jesus: Certamente, Meu filho, o meio para isso é a tua livre vontade. Na livre escolha da tua vontade podes simplesmente dizer «Deus lhe pague». Mas podes também dizer: «Mil vezes Deus lhe pague». Com este último pedes-Me que retribua o dom não apenas simplesmente, mas mil vezes mais. Com este pedido tão multiplicado dás-Me uma alegria muito maior do que com o simples «Deus lhe pague». Por isso, também o valor e a eficácia do «Deus lhe pague» multiplicado por mil é muito maior. Por maior e mais agradável a Mim que seja este pedido reforçado, há nele, contudo, uma certa limitação. Não te contentes, pois, com isso, mas acrescenta ao «Deus lhe pague» a palavrinha «eternamente». Se seguires este conselho, não só Me dás alegria, mas honras-Me também como Deus verdadeiramente omnipotente, eternamente bom e misericordioso. E prestas também à alma a quem agradeces com um «Deus lhe pague eternamente» uma obra de misericórdia incomparavelmente maior do que se agradecesses com um «Mil vezes Deus lhe pague». O mesmo vale inteiramente para «Deus abençoe para sempre».

Podes, porém, tornar o «Deus lhe pague» e o «Deus abençoe» ainda muito mais precioso, valioso e meritório. O meio para isso é a grande boa intenção.

Suscita, portanto, para toda a tua vida o acto de vontade de dizer sempre, em nome de todas as almas e por todas as almas, «Deus lhe pague eternamente» e «Deus abençoe para sempre». Com este acto ofereces-Me o agradecimento de todos os homens, também daqueles que nunca Me agradecem. Para que este grande acto de vontade do agradecimento universal não esmoreça em ti, aconselho-te a renová-lo com frequência. Mas não deixes também passar nenhuma ocasião de praticar a misericórdia, para que te seja muitas vezes dado ouvir um «Deus lhe pague eternamente» e «Deus abençoe para sempre». Se todas as almas procedessem assim umas com as outras, não só o amor aumentaria muito mais nos corações, mas também a bênção de Deus se desenvolveria muito mais e alcançaria uma eficácia espiritual cada vez maior.

Depois de, querida alma, estares instruída sobre o alto valor do «Deus lhe pague» e do «Deus abençoe», cuida de que também aquelas almas que nada sabem destas fontes de graça tenham conhecimento delas. Se o fizeres, terás parte em todos os efeitos que resultarem da tua instrução.4

Com alegria, dai graças ao Pai,
que vos tornou dignos
de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Cl 1,12

4 Vergelt's Gott, igualmente p. 26 e p. 27.

A saudação «Deus vos salve»

Jesus: Passa-se com o saudar algo semelhante ao que se passa com o agradecer. A saudação recíproca «Bom dia» de nada serve às almas. Em contrapartida, a saudação sincera e recíproca «Deus vos salve» traz grande proveito a quem se saúda, sim, ganho eterno. Atendo de boa vontade o pedido contido nesta saudação e saúdo as almas voltando para elas o Meu amor e a Minha graça.

Mas incomparavelmente mais abençoada ainda é a saudação «Ave Maria» ou «Louvado seja Jesus Cristo».

Considera, querida alma, que, se já um «Deus lhe pague» ou «Deus abençoe» traz a uma alma que está em estado de graça um tão grande ganho espiritual para a eternidade, quão incomparavelmente maior é então a recompensa pelas obras de obediência, de amor, de misericórdia, de abnegação e pela recepção dos santos Sacramentos, bem como pelo suportar paciente da cruz e do sofrimento, sobretudo quando estas obras Me são oferecidas em nome de todas as almas e por todas elas.

Oh, querida alma, sê, pois, diligente e aproveita todas as ocasiões de fazer o bem e sabe que estou sempre pronto a ajudar-te, a enriquecer-te espiritualmente.

Alma: Sejam-Vos oferecidos eternamente, ó bom Salvador, em nome e por todas as almas, louvor, honra, glória e acção de graças pela bondade e misericórdia sobremaneira grandes com que me instruístes tão amorosamente. Estou firmemente decidida a cumprir fielmente a Vossa vontade. Oh, concedei-me, por favor, a Vossa graça para isso.

Nós Vos louvamos e glorificamos e Vos damos graças, ó Santíssima Trindade, por todo o Vosso amor, graça e misericórdia, de eternidade em eternidade.

Saudai todos os santos em Cristo Jesus. Flp 4,21

Não vos esqueçais da Boa Intenção

A mística alemã Mechthild Thaller-Schönwerth (1868-1919) escreve: Hoje esteve comigo o falecido Padre Policarpo. Disse-me, em agradecimento pela libertação do Purgatório: «Jejua, reza, dá esmola, pratica a abnegação e a obediência e serás salvo.

Suscita em tudo o que fizeres a Boa Intenção de o realizar em nome de Jesus e com os sofrimentos de Jesus, e serás santa e perfeita.

Se pudesse voltar à vida só por mais uma hora, nada mais faria do que falar do valor incomensurável da 'Boa Intenção'.

Se tivesse sabido tudo como agora, teria pregado sempre apenas: «Não vos esqueçais da Boa Intenção!

Pela constante Boa Intenção aprende-se a perfeita obediência, a perfeita contrição e chega-se a um amor tão ardente que já não se consegue pensar em mais nada senão em Deus.

Pela constante Boa Intenção tornar-te-ás santa.

Digo-te isto em agradecimento pela tua oração!»5

Pai Celeste, ofereço-Vos tudo o que quer que eu venha a fazer, oferecer e sofrer, unido aos méritos de Jesus e de Maria, em nome de todas as almas e por todas as almas de toda a tríplice Igreja, com a vontade de assim agir e de querer continuar a agir por toda a eternidade. Ámen. Prof. Albert Drexel

5 Die Vertraute der Engel, Leben der Mystikerin Mechthild Thaller-Schönwerth, Jestetten 1992.

Uma luz para a nossa consciência

Segundo Santo Inácio de Loiola, a gratidão é um meio indispensável para um bom e frutuoso exame de consciência. Onde os recantos da alma são iluminados pela gratidão praticada diariamente, os movimentos corrosivos do mau humor e do descontentamento, que provêm, em última análise, do amor-próprio, não podem alcançar o domínio sobre a nossa alma.

Com a luz da gratidão podem detectar-se estes «ladrões da alegria» e tratar-se com os remédios adequados. Pois dificilmente é possível estar descontente e, ao mesmo tempo, ser grato. Vista assim, a prática do consentimento agradecido, vivido todos os dias, às exigências de Deus é exercício e testemunho de todas as virtudes.

A mãe da gratidão é a humildade, que como que lhe dá a vida, tal como a soberba gera a ingratidão. As irmãs da gratidão são a alegria e o contentamento, que com ela percorrem alegremente a vida e são acompanhadas por muitas outras virtudes.6

Habitua-te a elevar o teu coração a Deus, muitas vezes durante o dia, em gratidão.

Porque te desprezaram, porque tens o necessário, ou porque não o tens, porque Ele fez tão bela a Sua Mãe, que também é tua Mãe, porque criou o sol e a lua, as plantas e os animais, porque fez aquele homem tão eloquente e a ti tão pesado de palavra... Agradece-Lhe por tudo, porque tudo é bom. São Josemaria Escrivá

6 Cf. Geist und Leben, Zeitschrift für Aszese und Mystik, Würzburg 1956, Heft 4, p. 286 s.

Um remédio poderoso

Precisamente porque Deus tanto se alegra com a gratidão das Suas criaturas, esta virtude tão atraente, com a qual também enriquecemos o nosso próximo, deveria ser-nos uma preocupação do coração. Quase não há, aliás, medicina que, de modo semelhante, refresque, cure, fortaleça a alma e a torne receptiva à graça de Deus.

Do mesmo modo, desarma toda a forma de influências negativas, dispondo-nos a retribuir o mal com o bem e a perdoar a todos aqueles que não nos são favoráveis.7

A graça de ser grato em cada momento da vida, quer este momento tenha traços de alegria quer de dor, é fruto da confiança da fé de que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus. (Rm 8,28) A gratidão é o segredo de um homem alegre e contente, como o exprime a seguinte história:

Num animado grupo de italianos, uma jovem foi de repente tão tocada pela visão de um pequeno sacerdote idoso, cujo rosto irradiava uma alegria invulgarmente profunda, que se aproximou dele e lhe perguntou:

«Desculpe, se pergunto tão directamente, mas porque está o senhor tão cheio de alegria? Tem algum motivo especial?» – «Oh não, é antes o meu pequeno segredo. Mas vou revelar-lho», disse ele a sorrir. «Tenho 95 anos. Quando tinha cinco anos, constatei, com tristeza, que as pessoas se queixavam constantemente pelo mais pequeno motivo, e isso chocou-me. Senti também que Jesus estava triste por causa disso. Então fiz um contrato com Ele e prometi-Lhe que, durante os 100 anos seguintes da minha vida, nunca me queixaria; que, pelo contrário, O louvaria por tudo, pelos dias bons e pelos maus, e que honraria sempre o dom da vida. E devo dizer que cumpri a minha promessa. Durante todos estes anos em que tenho louvado a vida, o mal não me pôde fazer nada, e assim fugi de todos os demónios!»

Este sacerdote de quase 100 anos provou com a sua vida que a gratidão fez dele um homem feliz. A alegria agradecida quer comunicar-se, produz boas obras. Se já recebi tanto, então quero de bom grado partilhá-lo com os outros. Por isso os homens agradecidos são queridos. Trazem contentamento e uma certa serenidade alegre, mesmo quando também eles têm muito que carregar. É simplesmente agradável estar com eles, o que multiplica a felicidade de ambos os lados.

Quem não é grato queixa-se depressa e critica, o que apenas aumenta o descontentamento e agrava o mal. Quando, porém, o nosso coração está cheio de gratidão, não há ali lugar para o ciúme, a inveja, a vingança, a malevolência, a ira, a avareza, o desânimo ou até o desespero. Por isso a gratidão é o melhor remédio quando experimentamos em nós estes vícios, de que tantas vezes sofremos. Sim, pode dizer-se com verdade: a gratidão é uma chave para a felicidade.8

Dai graças por tudo, pois é esta a vontade de Deus a vosso respeito, em Cristo Jesus. 1 Ts 5,18
Vinde a Mim, todos os que estais carregados de fadigas. Eu vos aliviarei. Invocai-Me, Eu vos ouvirei, procurai e encontrareis, pedi e recebereis, batei e abrir-se-vos-á. Inscrição da imagem «Jesus, médico e boticário»

7 Cf. Geist und Leben.

8 Cf. Triumph des Herzens, Dankbarkeit der Schlüssel zum Glück, n.º 122.

Cristo como Boticário

Cristo como Boticário

A torrente de graças da Santa Missa

Jesus: Grava profundamente, querida alma, que a Santa Missa é o mesmo sacrifício que Eu ofereci na cruz ao Meu Pai Celeste pela redenção do mundo. Como o sacrifício da cruz, também o sacrifício da Missa é um sacrifício de valor infinito, porque Eu, igual a Deus Pai e ao Espírito Santo, Me ofereço em cada Missa ao Pai Celeste.

A oferta e a assistência à Santa Missa são, por isso, de todas as boas obras as de maior valor. Assim como o sol brilha mais claramente e é mais útil à terra do que todas as estrelas juntas, assim a oferta e a assistência à Santa Missa valem mais do que todas as boas obras de todos os homens tomadas em conjunto. Todas as boas obras são apenas obras humanas. Na Santa Missa, porém, ofereces o Meu Corpo e o Meu Sangue, sim, a Mim mesmo, o Filho unigénito de Deus. Assiste, por isso, querida alma, à Missa sempre que te for possível.

A Santa Missa é o mais sublime sacrifício de adoração e de louvor. Deus é a majestade eterna e infinita, o compêndio de todas as perfeições, o Senhor do Céu e da terra. A Ele se deve infinita homenagem, louvor e glória. Mas nenhuma criatura, nem sequer Maria, a Minha mãe queridíssima, pode por si mesma adorar, louvar e glorificar Deus como Ele merece. Só Eu, o Filho de Deus, posso honrar, louvar e glorificar dignamente a Divindade, e em cada Missa ofereço a Deus infinita adoração, louvor e glória, tal como Lhe são devidos.

Pelo sacrifício da Santa Missa podes também tu, querida alma, oferecer à majestade divina infinita homenagem, adoração, louvor e glória, sempre que assistires a ela com recta intenção. Oh, alegra-te e oferece com zelo a Deus o sacrifício de adoração e de louvor da Santa Missa. A Santa Missa é o mais perfeito sacrifício de acção de graças.

Pelas inúmeras graças e benefícios de que Deus incessantemente te faz participante, não podes agradecer como é devido a Deus. O que não podes por tuas próprias forças, Eu tornei-o possível. Em cada Santa Missa ofereço-Me, em suprema disposição de gratidão, ao Meu Pai Celeste como perfeito sacrifício de acção de graças. Comigo e por Mim podes também tu, querida alma, em cada Santa Missa a que assistes com disposição de gratidão, agradecer a Deus de modo perfeito.

Por Mim e pelo Meu Sacrifício Eucarístico ficaste tão rica que podes consagrar ao Pai Celeste uma retribuição inefavelmente elevada em agradecimento por todos os Seus benefícios. A gratidão é, porém, também uma magnífica virtude. Por isso não deves agradecer a Deus apenas na Santa Missa, mas sempre e em toda a parte.

A Santa Missa é o sacrifício de reparação e de satisfação plenamente suficiente. O pecado é uma ofensa infinita a Deus. Nenhum homem é capaz de, por um único pecado, prestar reparação e satisfação de pleno valor. Por isso Eu tive piedade da humanidade e ofereci-Me no madeiro da cruz ao Pai Celeste como reparação e satisfação. Este sacrifício de reparação e satisfação continuo-o na Santa Missa. […]

Jesus, Senhor cheio de bondade, verdadeiro Pelicano, lavai com o Vosso Sangue o que eu pequei.
Uma só gota deste Sangue basta para a salvação, apaga todo o crime que a terra jamais suportou. São Tomás de Aquino

Como sacrifício de satisfação, o Santo Sacrifício da Missa obtém o perdão das penas dos pecados que, depois do perdão dos teus pecados, terias de expiar na terra ou no Purgatório.

Este perdão das penas dos pecados é tanto mais perfeito quanto mais livre estiveres de apego ao pecado. O sacrifício de satisfação da Santa Missa podes também aplicá-lo às pobres almas, sim, não lhes podes prestar melhor serviço do que assistindo por elas à Santa Missa ou mandando celebrá-la por elas.

A hora da Santa Missa é verdadeiramente uma hora de ouro, porque por ela todo o teu trabalho do dia se transforma em ouro de valor eterno.

Deus, que vê o teu desejo, faz também derramar sobre ti e o teu trabalho do dia o efeito da Santa Missa.

A Santa Missa alcança-te, querida alma, também muitos benefícios temporais. Bênção para a tua profissão, consolo, coragem, ajuda nas tuas necessidades. Mas, como não sabes o que serve para a tua salvação, junta sempre aos teus pedidos temporais a condição: «Se for vontade de Deus», «Se servir para a salvação». De qualquer modo, é certo que em todas as intenções encontras com maior segurança ser atendida quando, na Santa Missa, unes os teus pedidos à Minha intercessão, pois pelo Meu sacrifício são cumpridos com mais segurança, mais depressa e plenamente.

Pela assistência à Santa Missa cresces no amor e na graça de Deus, e por isso tudo o que fazes durante o dia tem um valor incomparavelmente maior do que se não tivesses assistido à Santa Missa. Se, porém, te for realmente impossível assistir à Santa Missa, toma ao menos parte nela pelo desejo e pela aspiração. Sim, aconselho-te a fazeres a intenção de querer participar todos os dias em todas as Santas Missas.9

Ó Jesus, pela Vossa morte e pelo Vosso santo Sangue, convertei os pecadores, salvai os moribundos, libertai do Purgatório as pobres almas, santificai os sacerdotes, os religiosos e as famílias.

9 P. Bonaventura Blattmann OFM, Gnadenströme, Imprimatur: August Vindel, 04.05.1934 vic. Gen. Dr. Eberle.

Santa Margarida Maria Alacoque

Santa Margarida Maria Alacoque

A chave do Sacratíssimo Coração de Jesus

Na oitava do Corpo de Deus, em Junho de 1675, Jesus mostrou a Santa Margarida Maria Alacoque o Seu Coração Divino e disse-lhe:

Eis aqui o Coração que tanto amou os homens que não Se poupou, mas Se entregou e consumiu totalmente para lhes provar o Seu amor. Em recompensa, colho da maior parte apenas ingratidão, pela frieza e pelo desprezo que Me infligem neste Sacramento de amor. Mas o que mais Me dói é que também almas que Me são consagradas procedam assim para comigo. Por isso peço-te que, na primeira sexta-feira depois da oitava do Corpo de Deus, seja instituída uma festa especial em honra do Meu Sacratíssimo Coração. Nesse dia deve receber-se a Santa Comunhão e prestar-Me, por uma solene reparação, desagravo, para expiar as ofensas que são feitas ao Santíssimo Sacramento do Altar […].

Ao visitarmos Jesus uma e outra vez no Sacramento do Seu amor e ao agradecer-Lhe por tudo o que fez por nós, consolamos o Seu Sacratíssimo Coração e prestamos-Lhe reparação pela ingratidão e indiferença de tantas almas. Deste modo recebemos inúmeras graças para nós mesmos e para todos aqueles que Deus confiou à nossa oração. Pois a gratidão é a chave do tesouro do Sacratíssimo Coração de Jesus.

Honra, amor e gratidão ao Sacratíssimo Coração de Jesus! Oração indulgenciada

Mas, ainda que nem sempre tenhamos a ocasião de visitar Jesus no mistério do Seu amor e de O receber sacramentalmente, temos sempre a possibilidade de, pelo nosso desejo ardente, O saudar, adorar em todos os sacrários do mundo e receber espiritualmente com amorosa gratidão.

Santa Teresa do Menino Jesus deu à sua irmã carnal Celina o conselho: O que mais graças atrai de Deus é a gratidão. Quando Lhe agradecemos um benefício, Ele fica comovido e apressa-Se a conceder-nos dez outros.

Se Lhe agradecermos de novo com a mesma sinceridade, que incalculável multiplicação de graças!

Eu própria fiz esta experiência: Experimenta e verás. A minha gratidão é ilimitada por tudo o que Ele me dá, e prová-lo-ei de mil maneiras.

Quanto mais modesta e humilde é uma alma, tanto mais agradecida, mas também tanto mais forte se torna na fé de que também o sofrimento é um dom de Deus.

Agradeço-Vos, ó meu Deus! Por todas as graças que me concedestes, muito especialmente por me terdes feito passar pela prova de fogo do sofrimento. Com alegria Vos contemplarei no último dia, quando levardes o ceptro da Cruz. Já que Vos dignastes dar-me esta cruz tão preciosa como quinhão, espero no Céu ser semelhante a Vós e ver resplandecer no meu corpo glorificado as santas chagas da Vossa Paixão. Santa Teresa do Menino Jesus
Pai Celeste, pelo Imaculado Coração de Maria oferecemos-Vos, em nome de todas as almas e por todas as almas, infinitas vezes na intenção e sem cessar, o Sacratíssimo Coração de Jesus, com todo o Seu amor e com todos os Seus sofrimentos, com o Seu Precioso Sangue, com todos os Seus méritos e com toda a Sua vida e obra eucarísticas, como reparação e satisfação por todos os nossos pecados e para glória de todas as Vossas santas intenções. P. Bonaventura Blattmann
Como hei de retribuir ao Senhor todos os seus benefícios para comigo? Erguerei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Sl 115,12-13
Quando o tomo, o cálice avermelhado pelo Sangue do meu Senhor, e, em jubilosa acção de graças, misturo o meu sangue com o do santo Cordeiro sacrificado, ele torna-se participante da Sua infinitude e pode proporcionar ao Pai uma honra sumamente alta. Então o meu sofrimento é uma mensagem que leva a honra do Pai. Santa Isabel da Trindade
A Visitação – Maria em casa de Isabel

A Visitação – Maria em casa de Isabel

Dar graças com a Mãe de Deus

Todos os dias a Igreja inteira canta e reza, unida à Mãe de Deus, o grande louvor do Magnificat, para glorificar o Deus Trino e agradecer-Lhe em nome de toda a humanidade. Quanto mais deixamos que Maria em nós louve e agradeça a Deus, tanto mais ela nos faz participar nas suas gloriosas graças e méritos. Estes são tão grandes e sublimes que a agraciada abadessa Irmã Maria de Ágreda escreve: Só ela, o tesouro do Rei supremo e o santuário do «grande mistério», prestou-Lhe, em seu próprio nome e em nome de todo o género humano, muito mais veneração e acção de graças do que todos os Anjos e homens juntos.10

A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
Porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre. Lc 1,46-55

10 Maria von Agreda, Leben der jungfräulichen Gottesmutter Maria, Jestetten 1982, vol. II, p. 144.

Anjos conduzem os bem-aventurados à porta do Paraíso (Hans Memling, O Juízo Final)

A morte, a porta para a vida

A graça do momento

Jesus: Já ponderaste, querida alma, a importância de um momento?

Alma: Não, meu bom Jesus. Oh, instruí-me, por favor, sobre isso!

Jesus: Ouve-Me, então, e grava bem o que te comunico. A cada momento estão prontas para ti, querida alma, tanto a graça como a provação. Ambas estão, por assim dizer, sempre diante da tua porta. Mas isto é certo: que Eu avanço sempre com o Meu amor e a Minha graça, antes de deixar vir sobre ti um sofrimento ou uma provação. Isso, é verdade, não te parece assim, pois vês, em vez da graça, apenas os sofrimentos. A razão disso é que a graça é comunicada ao mais íntimo da alma, ao passo que os sofrimentos e as provações se aproximam da alma, na maior parte das vezes, pelo exterior. Fica-te dito, em particular, que não raramente Me sirvo de homens como Meus instrumentos para te infligir os sofrimentos e as provações destinados a ti. Ou também permito fraquezas e doenças humanas, sob as quais gemes, porque não queres saber nem compreender que todos estes sofrimentos não são apenas grandes dons de graça de Deus, mas que sob todos estes sofrimentos e provações estão também escondidas as mais preciosas graças. Concedi-te, querida alma, um bem verdadeiramente grande, e esse é o conhecimento. Se te serves dele, podes aproveitar todos os sofrimentos e provações de modo legítimo e também cooperar em tudo aquilo que reconheces como recto. Pelo conhecimento e pelos sofrimentos suportados em sentido legítimo, estes tornam-se graças, e pela graça sempre aproveitada és conduzida à íntima união com a Minha santíssima vontade. Cada momento pode encerrar em si um pensamento ou um acto de vontade, uma decisão, uma auto-oblação, ou uma separação de Mim. Sim, duas potências lutam e combatem muitas vezes na alma, e é num momento que a alma se decide ou pelo bem ou pelo mal. Num momento está concluída, para este tempo, uma vida de trinta, cinquenta ou oitenta anos. É num momento que o próprio Eu profiro o juízo sobre a alma. E é de novo num momento que se comunica à alma se será eternamente feliz no Céu ou eternamente infeliz e condenada no inferno.

Toda a vida é composta de puros momentos. Ninguém consegue contar todos os momentos que lhe foram dados durante toda a sua vida. Deus, porém, conhece-os todos. A Ele terás também de prestar contas um dia sobre o uso de cada momento. Felizes e bem-aventuradas, porém, todas aquelas almas que tanto cooperaram com a graça como suportaram os sofrimentos e as provações de tal modo que todos se tornaram para elas méritos eternos.

Aproveitamento dos momentos

Mas agora digo-te: rezai sem cessar. (1 Ts 5,17) A oração é precisamente um meio principal pelo qual podes aproveitar todos os momentos de modo legítimo. Pois, se rezas em todo o tempo, isto é, e quer dizer, se em tudo tens uma Boa Intenção e te unes a Mim, tudo, seja o que for que faças, trabalhes ou sofras, te redundará em mérito. Outro meio muito importante são para as almas as jaculatórias. Pois vê, querida alma, se rezas jaculatórias nos momentos da graça, o fluxo da graça tornar-se-á tanto maior. Se, porém, rezas jaculatórias quando estás em sofrimentos e provações, então, pelas jaculatórias, todos os sofrimentos e provações se tornam grandes fontes de graça. Assim como sem cessar prossegue o bater do coração e do pulso, assim também deves cultivar sem cessar a oração interior.

No tempo, porém, em que estás impedida por muitos trabalhos, deves ao menos deixar actuar a vontade. Como cada momento na vida do homem é tão precioso que nenhum deles deve perder-se ou ficar sem aproveitamento, deves, muito particularmente no tempo do trabalho, deixar a vontade activa, e não só para o presente do dia de hoje, mas deves também querer actuar antecipadamente com a vontade. Oh, esta actividade espiritual da vontade, tanto para ti mesma como para todas as almas, pela qual queres santificar todos os momentos de todos os homens e, segundo a Minha vontade, oferecer-Mos e sacrificar-Mos, e isto também fazes, quanto à vontade. É um campo de trabalho espiritual tão grande, de que brotam infinitos frutos espirituais e em que se opera algo verdadeiramente grande no tempo para toda a eternidade. Como Eu disse: Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como desejo que ele já se tivesse ateado! (Lc 12,49)

Vê, assim quero das almas que, todas inflamadas de amor por Mim, ponham a sua vida ao Meu serviço e façam de todos os momentos graças e se santifiquem. Mas isso fazem-no pouquíssimas almas. Omitem-no até muitas daquelas almas que se chamam Meus servos e Minhas servas. Como em toda a parte, também neste ponto podes intervir em reparação e desagravo. Isso acontece, pois, fazendo e querendo fazer tudo em nome de todas as almas e por todas as almas. Deves fazê-lo de modo tão amplo que sejas não só generosa, mas verdadeiramente magnânima. Vê, basta um momento para suscitar um acto de amor, para te vencer aqui e ali, para seguir o convite da graça e do amor de Deus ou para ceder à natureza corrompida. Tudo isto podes fazer por diversos motivos.

Por exemplo, para que Eu te recompense eternamente por isso, ou para provar-Me o teu amor por obras, ou para que Eu te faça participar na Minha obra eterna, ou em nome e por todas as almas, ou para actuar pelas intenções e interesses de Deus. Quanto mais sublimes e generosos forem os teus motivos, tanto mais magnânima és.11

11 P. Bonaventura Blattmann OFM, Leitsterne zum Himmel, Imprimatur: Augustae Vindel, 06.06.1934 vic. gen. Dr. Eberle.

A grande Ladainha de acção de graças

É verdadeiramente digno e justo, razoável e salutar que Vos demos graças sempre e em todo o lugar, Santo Senhor, Pai omnipotente, Deus eterno. Início do Prefácio

Senhor, tende piedade de nós!
 Senhor, tende piedade de nós!

Cristo, tende piedade de nós!
 Cristo, tende piedade de nós!

Senhor, tende piedade de nós!
 Senhor, tende piedade de nós!

Cristo, ouvi-nos!
 Cristo, atendei-nos!

Deus Pai do Céu, tende piedade de nós!
Deus Filho, Redentor do mundo, ...
Deus Espírito Santo, ...
Santíssima Trindade, um só Deus, ...

Santa Maria, Mãe de Deus, entoai o coro da acção de graças!

Pela luz, pela vida e por toda a criação, nós Vos agradecemos, ó Deus!
Pelo presépio, pela cruz e pela manhã de Páscoa, ...
Pela pomba com as sete chamas do fogo do Céu, ...
Pela revelação do mistério da Vossa Santíssima Trindade, ...
Pela Rainha do Céu, Mãe do Vosso Filho e nossa Mãe, ...
Pela água purificadora do Baptismo sobre a nossa cabeça, ...
Por aquele que nos conduziu à Vossa Igreja, ...
Por pai e mãe, parentes e amigos, ...
Pela pátria, pelo governo e pela língua materna, ...
Pelo pão de cada dia, pelo nosso lar e pelo nosso trabalho quotidiano, ...
Pelo consolo, pela felicidade e pela protecção nos perigos, ...
Pelas obras de penitência que nos destes a praticar, ...
Pelo cálice amargo, mas fortalecedor, dos sofrimentos, ...
Pela graça da Confirmação, sinal dos combatentes do Espírito Santo, ...
Pelo sacrifício do Corpo e do Sangue de Cristo, ...
Pelo alimento quotidiano do Pão do Céu, ...
Por Jesus, que habita connosco no altar, ...
Pela força recebida no tribunal da Penitência, ...
Pelo óleo para alívio e salvação dos doentes, ...
Pelo poder do sacerdote de Vos invocar, ...
Pela grandeza, honra e dignidade do vínculo matrimonial, ...
Pela Igreja, que a todos nos eleva e reúne, ...
Por Pedro, com as chaves do Reino dos Céus nas mãos, ...
Pelo Vosso sacerdócio e pastoreio régios, ...
Pelos ramos florescentes das Ordens na árvore da santa Igreja, ...
Pela mais completa prova da fé, ...
Pela esperança de Vos ver face a face, ...
Pela felicidade de poder amar o Vosso Nome e a Vossa honra, ...
Pela ajuda dos Anjos no combate na terra, ...
Pela coragem que haurimos da obra dos Santos, ...
Por todos os Santos, que intercedem junto do Vosso trono, ...
Pela pureza imaculada da Virgem Maria, ...
Pela Sagrada Escritura e pela doutrina da Igreja, ...
Por todas as vitórias gloriosas do Vosso Reino, ...
Por todas as festas resplandecentes da Igreja, ...
Pela atenção concedida à nossa oração pelos defuntos, ...
Por nos terdes dado uma alma imortal, dotada de razão, ...
Por terdes enobrecido a nossa vontade com a liberdade, ...
Por nos terdes dado a boa vontade, ...
Por nos terdes prometido a recompensa eterna até pela menor coisa, ...
Pela providência amorosa que nos conduz pela vida, ...
Pela luz que nos iluminou nas noites escuras, ...
Pela mão que nos segurou quando o chão tremia debaixo dos nossos pés, ...
Pelo Coração compassivo de Jesus Cristo, ...
Pelas graças que destes em vez de castigos, ...
Por um dia ressuscitarmos dos mortos, ...
Por Cristo vir sobre as nuvens do Céu, ...
Por Ele julgar com justiça os bons, ...
Por Ele dobrar de joelhos os soberbos, ...
Por podermos, na tarde do Juízo Final, entrar jubilosos no Céu, ...

Ó Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, (três vezes)
Perdoai-nos, Senhor.
Ouvi-nos, Senhor.
Tende piedade de nós, Senhor.

Oremos.

Ó Deus, que dissestes: «Dai graças por todas as coisas». Pedimo-Vos humildemente: concedei-nos a graça de começarmos aqui na terra o nosso agradecimento de modo que o possamos completar no Céu. Por Jesus Cristo, Vosso Filho, Nosso Senhor e Deus, que na unidade do Espírito Santo convosco vive e reina por todos os séculos. Ámen.12

12 Grande Ladainha de acção de graças de Jakob Olrik, convertido e sacerdote católico na Dinamarca, Imprimatur: Hafniae, 7.4.1923, † Josef Brems, O. Praem. Episc. Roskildensis Vicarius Apostolicus Daniae.

São Félix de Cantalice com o saco das esmolas e o terço

São Félix de Cantalice com o saco das esmolas e o terço

Frei Deogratias

O ideal franciscano da simplicidade de coração agradecida mostra-se de modo muito particular na vida do santo irmão capuchinho Félix de Cantalice (1515-1587). Já em criança, Félix, que nunca aprendeu a ler nem a escrever, rezava diante de cruzes que ele próprio improvisava, enquanto guardava as ovelhas e as cabras do pai. Quando mais tarde entrou ao serviço de estranhos como criado, um dia dois bois assustaram-se ao lavrar e passaram com o arado por cima dele. Félix, que ficou ileso como por milagre, sentiu neste acontecimento claramente o chamamento de Deus e entrou no mosteiro de capuchinhos mais próximo. No seguimento de Jesus, a cruz tornou-se de tal modo, para o humilde analfabeto, o livro de estudo que ele dizia: Quem não entende este livro não sabe o que são livros. A contemplação dos sofrimentos de Cristo, de todo o bem que o Senhor fez por ele, era-lhe fonte perene e mistério mais profundo da sua gratidão e alegria. De bom grado explicava: Estudo seis letras: cinco vermelhas e uma branca. As vermelhas são as chagas do Salvador, a branca é Maria, a quem amava como uma criança.13

O seu amável Deo gratias – Graças a Deus! por tudo o que quer que recebesse como esmoler do seu mosteiro nas suas voltas pelas colectas em Roma, valeu-lhe na boca do povo o nome de Frei Deogratias.

Embora estivesse convencido de que todas as coisas são capazes de nos elevar a Deus, se as contemplarmos com um olhar humilde, para permanecer interiormente em Deus, percorria as ruas de Roma de olhos baixos e a rezar o terço, batia incansavelmente às portas dos palácios tal como às das pobres moradias, sempre alegre e contente com tudo o que lhe davam. Mesmo ao escárnio e a insultos grosseiros respondia a sorrir com um sincero Graças a Deus – Deo gratias! Em tudo, não só nas esmolas das pessoas, mas precisamente nas humilhações, Frei Félix via um dom da mão de Deus, que servia para a sua santificação e a de outros. O capuchinho tinha um ânimo encantadoramente infantil e aberto. Por isso, ao lado dos pobres e dos doentes, muitos dos quais curou, as crianças da cidade eram os seus particulares preferidos. Gostava de as reunir em volta de si e de lhes fazer repetir o Deo gratias!, como que para se deixar ajudar por elas a dar graças a Deus continuamente. Uma particular amizade e afinidade de alma unia-o a São Filipe Neri, o apóstolo de Roma e fundador dos Oratorianos.

Quando Frei Félix regressava ao mosteiro, cansado, com os «tesouros» recolhidos, contentava-se com algumas côdeas de pão e um pouco de vinho. De noite, quando os confrades dormiam, ia sozinho à igreja do mosteiro e ali apresentava a Deus, em oração íntima, as intenções dos seus benfeitores e todo o povo romano. Em oração com os braços abertos diante do Santíssimo, passava hora após hora, muitas vezes entre lágrimas, em oração de intercessão, em profunda contemplação.

No decurso dos 40 anos em que Frei Félix desempenhou fielmente e com humildade sem par o seu ofício, os romanos aprenderam a conhecê-lo e a amá-lo, até que, para eles, deixou de ser possível imaginar a cidade sem ele.

Nos seus últimos sete anos de vida, atormentavam-no muitas vezes violentas cólicas, mas dizia destes sofrimentos: São rosas, são flores. No dia antes de morrer, Frei Félix caiu de repente, com um «Oh!» de espanto, em êxtase e disse: Nossa Senhora está aqui, acompanhada de Anjos. Depois de, no dia seguinte, segunda-feira de Pentecostes, 18 de Maio de 1587, ter recebido os últimos Sacramentos, o capuchinho exclamou três vezes, cada vez mais alto: Deo gratias!, e fechou serenamente, como se quisesse dormir, os olhos.14

Em toda a parte, em todo o lugar, a toda a hora e em todo o tempo, queremos louvá-Lo e dar-Lhe graças, ao Deus eterno, sublime e altíssimo, Trindade e Unidade, Pai, Filho e Espírito Santo, Criador de todas as coisas e Salvador dos que Nele crêem, Nele esperam e O amam. São Francisco de Assis

13 Frei Lupo, que um dia dera a Félix o conselho genial de repetir muitas vezes o Deo gratias nas suas voltas de esmolas, observou uma noite como Frei Félix se prostrou diante do altar-mor e pediu à Mãe de Deus, suplicante: Empresta-me um pouco o teu Menino Divino. De repente, a imagem de Nossa Senhora no altar ganhou vida, a Mãe de Deus inclinou-se para ele e pôs nos braços de Félix o seu pequeno Filho, que este apertou ao peito com bem-aventurado amor e entre lágrimas.

14 Fonte principal: P. Edilbert Lindner OFM Cap, Die Heiligen des Kapuzinerordens, Verlag der Bayrischen Kapuziner, Altötting.

Entrai nas suas portas em acção de graças, nos seus átrios com hinos de louvor; agradecei-lhe e bendizei o seu nome. Sl 100,4